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As Verdades Sobre a Jornada - CAPÍTULO 1 - Jornada não é Diário Pessoal

Por que o fim da atividade deve ser registrado no momento correto — e não no encerramento emocional do dia.


Há uma confusão silenciosa, porém muito comum, na rotina dos motoristas: muitos tratam o registro de jornada como se fosse um diário pessoal, semelhante àquele caderno íntimo onde colocamos pensamentos, sentimentos e o fechamento emocional do dia.


É uma mistura natural. A vida na estrada é diferente. A cabine vira casa. A noite chega sem quarto, sem rotina doméstica.


E, diante desse cenário, o motorista cria uma lógica própria:


“Só vou encerrar o dia quando eu realmente for dormir.”


O problema é que, para o sistema e para a legislação, a lógica é outra.


A jornada não registra a vida do motorista — ela registra a atividade.


Existe uma diferença enorme entre:

1. Encerrar o dia emocionalmente

(começar a relaxar, conversar com a família, ajeitar a cabine, preparar-se para dormir)


e


2. Encerrar o trabalho

(parar de dirigir, parar de carregar, parar de descarregar, parar de cumprir qualquer tarefa da operação)


E essas duas coisas não acontecem ao mesmo tempo.

A operação termina muito antes do motorista entrar no seu momento pessoal.

Mas é justamente aí que ocorre o erro mais comum.


O erro de marcar o fim da jornada no “fim da noite pessoal”

Muitos motoristas só registram Fim de Jornada depois de:


  • Fazer sua última refeição,

  • Tomar banho,

  • Conversar com alguém pelo celular,

  • Organizar a cabine,

  • E se preparar para dormir.


Ou seja:


Eles marcam o fim do trabalho quando o corpo e a mente dizem que o dia acabou — e não quando a atividade realmente terminou.

O que parece um detalhe pequeno cria impactos enormes:


  • Descanso inter jornada menor do que o real (risco de passivo trabalhista),

  • Horas extras indevidas,

  • Distorção no cálculo da espera e da direção,

  • Relatórios com dados irreais,

  • Problemas operacionais e legais.


Tudo por um motivo simples: a marcação foi guiada pelo emocional, não pela atividade.


Comparando com a rotina de um funcionário do setor administrativo

Claro que a rotina de um trabalhador do setor administrativo da empresa não tem quase nenhuma semelhança com a rotina de um motorista, mas para fins didáticos, existe uma forma simples de visualizar essa diferença entre vida pessoal e atividade profissional comparando as duas realidades:


Um funcionário de escritório, por exemplo, encerra sua jornada no momento em que ele para de trabalhar:


  • Ele desliga o computador,

  • Recolhe seus materiais,

  • Sai da empresa,

  • Passa pela portaria,

  • E pronto: a jornada acabou ali.


O que acontece depois — ônibus, metrô, carro, trânsito, mercado, banho, jantar — não tem qualquer relação com a jornada registrada. É rotina pessoal. É vida particular. E isso não entra no ponto.


Ninguém marca fim de jornada ao chegar em casa. Ninguém encerra ponto no momento em que vai dormir. Ninguém estende o horário de trabalho porque demorou mais no trânsito ou passou no mercado.


A jornada encerra na empresa, não na vida doméstica.


Com o motorista, tecnicamente é igual. A diferença é que o “local de trabalho” não é um prédio — é a estrada, a operação, a atividade em si. Mas o princípio é o mesmo:


A jornada termina quando o trabalho termina, não quando o dia pessoal termina.


O motorista, por estar fora de casa e vivendo ritmos diferentes, às vezes se acostuma a encerrar a jornada só quando se sente “em estado de descanso emocional”. Mas isso é o equivalente a alguém do administrativo encerrar o ponto somente quando chega em casa e põe o pijama.


Na prática, a lógica correta é:

Terminou a atividade = Terminou a jornada.

O restante é rotina pessoal — importante, humana, mas não registrada como tempo de trabalho.


Por que essa confusão acontece?

Porque a estrada cria uma rotina onde trabalho e vida pessoal se misturam o tempo todo .O motorista está:


  • Sozinho,

  • Longe da família,

  • Convivendo com horários variáveis,

  • Lidando com estrada, clientes, pressão, cansaço,

  • Reorganizando a vida diariamente dentro da cabine.


Essa fusão de vida e profissão leva naturalmente à sensação de:


“Minha jornada só acaba quando eu estiver pronto pra dormir.”


Mas, tecnicamente, não é assim que a jornada funciona.


Estar fora de casa faz parte do ofício — um ônus emocional compreensível. Mas isso não muda o fato de que a atividade de trabalho tem um começo e um fim independente da rotina pessoal.



E as outras marcações? A mesma lógica se aplica.


A confusão não ocorre apenas no fim da jornada. Ela também aparece em:


PAUSA

Alguns só marcam quando realmente vão comer. Mas pausa é interrupção da atividade, não o momento exato da refeição.


REFEIÇÃO

Outros marcam apenas quando se sentam à mesa. Mas operacionalmente, o intervalo começa quando o trabalho deixa de estar em andamento.


ESPERA

Muitos confundem com descanso. Mas espera é tempo à disposição da operação, mesmo parado.

A linha que divide vida pessoal e atividade operacional é tênue — mas precisa ser respeitada para que os dados façam sentido.



O ponto central do capítulo


A vida do motorista na estrada é intensa, adaptativa e emocional. O encerramento pessoal do dia depende de fatores que variam diariamente: tempo, local, humor, cansaço, condição da cabine, contato com a família…

Mas o fim da jornada técnica não depende de tudo isso. Ele depende exclusivamente da interrupção da atividade de trabalho.

Misturar uma coisa com a outra faz com que:


  • O sistema registre horas que não existiram,

  • A operação pareça mais longa do que realmente foi,

  • E o descanso pareça menor do que realmente ocorreu.


A clareza sobre essa diferença é o primeiro passo para uma jornada bem registrada, justa e alinhada com a realidade.


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